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Comércio Escravo 2: tentativa de escapar esbarra em ameaças

Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2017 às 15:53 por (jrr.ocorreio@gmail.com)
Segunda reportagem da série foi veiculada hoje (11) na Rádio Cachoeira / Foto: Reportagem

- Rádio Cachoeira -

A Rádio Cachoeira apresentou hoje (11) a segunda parte da série especial "Comércio Escravo". A produção da Central de Jornalismo revela detalhes do esquema responsável por aliciar jovens no Norte e Nordeste do Brasil para a venda ambulante. O roteiro inclui o interior gaúcho, passando por Cachoeira do Sul.

As dívidas criadas para prenderem os jovens vendedores ambulantes no esquema de comércio clandestino que tem roteiro no Estado e também por Cachoeira do Sul são impagáveis. As tentativas de fugir do comércio escravo acabam impedidas.

A reportagem da Rádio Cachoeira confirma a denúncia sobre dívidas que ligam os vendedores clandestinos a um esquema ilegal montado em cima de ameaças e cobranças. Um dos ambulantes que aceitaram conversar descreve:

Reportagem - Como é no dia de acerto?

Ambulante - No final das contas, meu saldo é negativo. Tem gente com quatro meses aqui e chora pra ir embora e ele diz que só sai quandoi pagar

A busca dos jovens em pagar as dívidas é uma luta injusta.

Reportagem - Conta como é tentar pagar essa dívida...

Ambulante - Nunca paga. Nunca consegue pagar. Se ficar com dívida de R$ 30 ou R$ 40, fica o resto da vida tentando pagar e na mão dele.

Durante a conversa, a mulher do ambulante - que está na Paraíba - entra em contato. Com permissão do companheiro, a reportagem coloca o telefone no viva-voz e o relato revela que a situação não é inédita para o casal.

Reportagem - Como foi então essa primeira vez que ele veio?

Mulher - Foi um agonia. Não tinha mais nada em casa pra gente comer. Passei dois meses na casa da minha mãe pra ter comida pras crianças comer.

Um dos jovens vendedores ambulantes confidencia para a reportagem as razões por estar preso ao esquema, mesmo depois de ter conseguido mandar dinheiro para ajudar a família após tanto tempo longe de casa. O caminhão que traz o grupo do Norte e Nordeste do país para o Estado, incluindo Cachoeira do Sul, é chamado de "avião".

Reportagem - O que ele falou para vocês continuarem?

Ambulante - Falou pra nós que o avião só ia embora quando terminasse o serviço. Se quisesse, era pra voltar a pé. Daí continuamo trabalhando...

O chefe do Estado Maior do Batalhão Rodoviário de Cachoeira do Sul, Marcos Migotto Carneiro, detalha a fiscalização nas estradas que cortam a Região na busca de coibir o transporte e mercadorias ilícitas e dos vendedores ambulantes que servem ao esquema de comércio escravo. "A gente aborda o veículo e faz o procedimento normal. Confere a nota fiscal da carga. Tendo material sem procedência, a gente encaminha para a área judicial. É nesse sentido a nossa fiscalização nessa situação", detalha.

Já o secretário municipal de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Ronaldo Tonet, destaca a necessidade de fiscalização também para proteger o setor local. "Tem que fiscalizar. Vi alguns vendedores ambulantes na cidade vendendo redes e outras coisas. Se não tiver autoização, não pode", sintetiza.

No entanto, o próprio responsável pela pasta admite dificuldades pelo reduzido número de fiscais. "São dois fiscais. Precisaríamos muito mais. Isso é um problema tanto da atividade pública quanto na privada. Tem um monte de gente fazendo burocracia e ninguém atendendo ao público", ressalta.

Os fiscais atuam também orientados por denúncia. Palavra, aliás, que está presente nos pensamentos dos jovens vendedores do comércio escravo ambulante.

Ambulante - Se alguém quiser denunciar ele, diz que manda matar...

O procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Sul, Rogério Unzun Fleischmann, revela que a falta de auditores suficientes é um desafio a mais na tentativa de combater o esquema no interior do Estado que passa também por Cachoeira. "Faltam auditores. E precisamos encontrar alternativas a isso", resume.

A ativista social pelos Direitos Humanos no Estado, Tâmara Biolo Soares, participou da elaboração do Plano de Combate ao Trabalho Escravo no Rio Grande do Sul e valoriza o conjunto de ações contra a engenharia do comércio clandestino que prende jovens a regras próprias que garante lucro para os donos do esquema. "Ele (plano) vai trabalhar na prevenção e com foco muito grande na fiscalização", descreve.

Na próxima reportagem, que será veiculada amanhã (12) no programa Giro Regional, a série mostrará a ação na prática de órgãos competentes para combater o comércio escravo.

 

TAG: Comércio Escravo, Rádio Cachoeira
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